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Olho vermelho — hiperemia conjuntival, causas e tratamento em Alphaville

Olho vermelho: causas, diagnóstico e quando buscar ajuda

O olho vermelho é uma das principais causas de consultas oftalmológicas no Pronto Socorro e em consultório. O espectro é vasto e existem dezenas de diagnósticos diferenciais. Pode tratar-se de uma irritação ocular inespecífica/fugaz ou até mesmo de alguma condição realmente ameaçadora ao olho. O diagnóstico acurado só é possível com uma anamnese direcionada e com o exame na lâmpada de fenda (microscópio).

O QUE FAZER?

Pode-se lançar mão de lágrimas artificiais, preferencialmente sem conservante como as abaixo. Não é necessária prescrição médica para se obter esses lubrificantes oculares. Esses colírios são os únicos que podem ser usados de forma indiscriminada.

O QUE NÃO FAZER?

  • PROTELAR A CONSULTA AO OFTALMOLOGISTA
  • SE AUTO MEDICAR COM COLÍRIOS ANTIBIÓTICOS, CORTICÓIDES OU VASO CONSTRITORES (ex: cloridrato de nafazolina + maleato de feniramina)
  • PINGAR NO OLHO SUBSTÂNCIAS QUESTIONÁVEIS infelizmente presentes no imaginário popular tais como água boricada, seiva, leite materno, etc.

Mesmo diante de um quadro grave, quando inicial, o tratamento é muito mais fácil e curto. A intenção de ajudar, mesmo de médicos não especializados em olhos, acaba, com frequência, realmente atrapalhando. O paciente acaba sendo privado da oportunidade de ser pronta e corretamente diagnosticado.

Abaixo comentarei brevemente, algumas das causas de olho vermelho que vejo com freqüência.

CONJUNTIVITE INFECCIOSA

A esmagadora maioria delas é a viral (pelo adenovírus, principalmente). Explico para os pacientes que é uma espécie de “resfriado” do olho. Costuma durar 7a 10 dias, sendo o 3º e 4º os piores, e comumente afeta os dois olhos. Compressas geladas com água potável e colírios lubrificantes ajudam a atenuar o desconforto. Precaução de contato é essencial visto que é altamente contagioso!

Se o quadro está prolongado ou se as pálpebras estão demasiadamente inchadas, é necessário verificar na lâmpada de fenda (microscópio) se houve formação de (pseudo) membranas figura A e removê-las adequadamente. Infiltrados subepiteliais (“manchinhas” na córnea, figura B) são complicações possíveis e podem causar embaçamento visual significativo se não tratados no tempo e do jeito corretos.

Figura A
Figura B

OLHO SECO

A superfície ocular sofre constante agressão do ar condicionado/vento, calor excessivo e tempo de tela (piscar menos frequente).

Ter esse microambiente saudável é de extrema importância para manter o trofismo na córnea, a integridade da camada mais superficial do “vidro de relógio” do olho. Isso previne muitos problemas. O olho, por ser bastante sensível, pode ficar bastante sintomático simplesmente por secura ou lesões pequenas.

Os lubrificantes sugeridos acima costumam resolver a maioria dos casos.

ÚLCERAS BACTERIANAS

A frase “Tudo que é grande um dia foi pequeno” é muito verdadeira para essa urgência ocular. Quando o paciente procura a assistência correta e o antibiótico de amplo espectro e com alta frequência é instituído, em poucos dias o quadro se resolve e possivelmente até sem deixar sequelas. Por outro lado, dependendo da agressividade do agente causador e da demora para diagnosticar e tratar corretamente, as úlceras podem evoluir para necrose tecidual, perfuração ocular e transplante de córnea de urgência. Em casos extremos, a remoção do globo ocular inteiro (enucleação), pode ser necessária!

O uso de lentes de contato, sobretudo quando os cuidados são inadequados, é um fator de risco importante. Somada ao contato com água pontencialmente contaminada, há o temor da dramática infecção pelo protozoário Acanthamoeba.
Trauma envolvendo plantas aumentam a chance de infecção por fungo, que são de difícil e prolongado tratamento.

HEMORRAGIA SUBCONJUNTIVAL (HIPOSFAGMA)

Essa mancha vermelha impressiona os pacientes e familiares mas trata-se de algo semelhante a um hematoma na pele. Um vasinho da superfície ocular pode se romper espontaneamente ou pelo ato de coçar/pico pressórico sistêmico ou algum esforço físico. Trata-se de um quadro benigno e autolimitado, ou seja, fica tudo bem e volta ao normal sozinho. Em geral, demora 1 a 3 semanas para esse sangue ser reabsorvido e a esclera voltar a ficar totalmente branca.

CORPO ESTRANHO CORNEANO/CONJUNTIVAL

Fragmentos metálicos são os mais comuns e precisam ser completamente removidos a fim de se evitar sequelas e infecções. Partículas variadas podem se alojar nos olhos e causar grande incômodo. A retirada deles, em lâmpada de fenda, costuma ser tranquila após a instilação de colírio de anestésico e com a ajuda de cotonetes ou agulhas delicadas. Colírio preventivo de antibiótico é recomendável após sua remoção.

BLEFARITE

O excesso de oleosidade na margem palpebral, onde os cílios emergem, causa muito incômodo e coceira, pois ele piora a qualidade da lágrima, promove a hiperproliferação das bactérias normais da pele, predispõem a hordéolos (“terçol”) e inflama cronicamente a pálpebra. O olho que é sensível e fica adjacente às pálpebras acaba sendo afetado. A higiene palpebral regular e adequada ajuda a melhorar esse quadro tão comum, porém tão inconveniente.

ESCLERITE

É uma inflamação da esclera, a “parte branca” do olho, mais comumente causada por alguma doença autoimune (como a artrite reumatóide) ou infecções sistêmicas. Trata-se de uma vermelhidão mais profunda, com um tom arroxeado acompanhada de dor ocular intensa, que piora piorando com movimento dos olhos.

Diferente da episclerite, que é mais superficial e geralmente benigna, a esclerite afeta toda a espessura da esclera, podendo comprometer camadas mais profundas do globo ocular e representar risco real à visão e até mesmo ao globo ocular.

A forma mais comum é a esclerite anterior, podendo ser difusa, nodular ou necrosante – esta última sendo a mais grave, com risco de afinamento da parede ocular e perfuração. A esclerite posterior é menos frequente, mas também pode causar dor profunda e perda visual importante.

Em casos leves, podem ser usados anti‑inflamatórios tópicos ou sistêmicos. Em quadros moderados a graves, o tratamento de primeira linha é à base de corticoides sistêmicos (via oral ou injetável) e, quando necessário, medicamentos imunossupressores para controlar a inflamação e evitar danos permanentes ao olho.

CONJUNTIVITE QUÍMICA

Produtos de limpeza, cola de extensão de cílios e pomada fixadora de cabelo “escorrida” são as que vejo com mais frequência. Se acontecer com você ou alguém próximo lave abundantemente com algum líquido limpo disponível no local (soro fisiológico, água potável ou água corrente de torneira) para que o produto não fique “agindo” na superfície da córnea. Na maioria dos casos, com o tratamento adequado, o epitélio corneano/conjuntival é regenerado em poucos dias e os sintomas progressivamente vão desaparecendo.

CONJUNTIVITE ALÉRGICA

Portadores de rinite/asma/dermatite atópica comumente tem algum grau de acometimento ocular. Coçar os olhos é um crime! Apesar de satisfatório, é um hábito bastante danoso que pode machucar a superfície ocular ou trazer microrganismos que podem infeccionar o olho. A prescrição dos colírios corretos e da forma devida melhoram muito a qualidade de vida dessas pessoas que tanto sofrem com o quadro alérgico.

ABRASÃO CORNEANA

Coçar os olhos vigorosamente, patadas de gatos/cachorros, traumas “de raspão” pode machucar a superfície ocular e causar bastante incômodo pelo fato de a córnea ser um tecido extremamente inervado. O bom é que costuma se regenerar em poucos dias com o tratamento adequado.

UVEÍTE

A uveíte é a inflamação da úvea (íris, corpo ciliar, coróide), uma condição potencialmente grave que causa dor intensa, vermelhidão e perda de visão. Ela reflete processos imunomediados ou infecciosos que afetam múltiplos órgãos. Pode ser o primeiro sinal de uma doença sistêmica.

É classificada como anterior (mais comum, afeta íris), intermediária (corpo vítreo), posterior (coróide/retina) ou pan-uveíte (toda a úvea).

35% dos casos são idiopáticos (sem causa identificada), mas frequentemente associada a doenças autoimunes (artrite reumatóide, espondilite anquilosante, lúpus, sarcoidose, Behçet), infecções (toxoplasmose, herpes, sífilis, tuberculose) ou traumas.

Sem tratamento, leva a complicações graves: catarata, glaucoma, edema macular e cegueira.

CRISE DE FECHAMENTO ANGULAR

Também conhecida como glaucoma agudo de ângulo fechado, é uma emergência oftalmológica causada pelo bloqueio súbito da drenagem do humor aquoso. Isso ocorre quando a íris já predisposta obstrui o ângulo de drenagem, elevando rapidamente a pressão intraocular e podendo levar a perda irreversível da visão em pouco tempo se não tratada.

O paciente apresenta dor ocular intensa (pode irradiar para cabeça, ser acompanhada de náuseas e vômitos), embaçamento visual, halos coloridos ao redor das luzes, olho vermelho, córnea edemaciada, pupila fixa em média midríase, além de pressão intraocular elevadíssima (40-80mmHg)!

O diagnóstico correto e as medidas adequadas podem literalmente salvar a visão desse olho e prevenir a ocorrência disso no outro olho.

Saiba mais em Glaucoma

GLAUCOMA NEOVASCULAR

É um glaucoma secundário agressivo (causado pela proliferação anormal de neovasos na íris e no ângulo camerular (sistema de drenagem do olho). O principal estímulo para esses nocivos vasos é a hipóxia retiniana severa (VEGF elevado), causada principalmente pela retinopatia diabética proliferativa e oclusão da veia central da retina (OVCR). O olho pode ficar bastante vermelho e dolorido. O tratamento é bastante complexo e o ideal é nunca deixar que se chegue nesse estágio!

TUMORES CONJUNTIVAIS

Os tumores conjuntivais são lesões frequentes na superfície ocular, originadas na conjuntiva (membrana fina que recobre o “branco do olho”). Gostaria de destacar 3 que podem ser a causa de vermelhidão ocular persistente.

  • Pterígio: benigno. Saiba mais em https://oftalmologia-alphaville.com/pterigeo/

  • Papiloma escamoso (benigno)

  • Carcinoma espinocelular (CEC) de conjuntiva: maligno. Pode haver invasão local em casos avançados. Suspeitar e investigar é crucial. Já tive um caso desses no consultório, inclusive. Tratável com quimioterapia com colírios e/ou excisão cirúrgica.

CERATITE HERPÉTICA

É uma infecção da córnea, com risco de recidivas, causada pelo vírus herpes simplex tipo 1. Pode afetar epitélio, estroma ou endotélio, levando a cicatrizes permanentes se não tratada precocemente com tratamento antiviral oral e colírios adjuvantes.

Creio que tenha dado para entender que irritação ocular realmente pode ser um monte de coisas diferentes e que na grande maioria dos casos, só o exame em consultório vai poder dizer com certeza, do que se trata. Você pode até lubrificar os olhos de um dia para o outro e ver se melhora. Se a vermelhidão e os sintomas persistirem (fotofobia, lacrimejamento, sensação de corpo estranho, etc), procure o oftalmologista. Teleconsultas ou opiniões de médicos não especializados, podem atrasar o diagnóstico e instituição do tratamento correto, causando prejuízo real ao olho.

Terei o maior prazer em atendê-lo. Sempre amei atender urgências oftalmológicas e tenho bastante experiência nessa área!

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