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Glaucoma — nervo óptico afetado, oftalmologista em Alphaville

Glaucoma: o ladrão silencioso da visão

O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no Brasil e no mundo. Diferente da catarata (reversível definitivamente por cirurgia), o glaucoma danifica progressivamente o nervo óptico, causando perda permanente da visão, inicialmente periférica e depois difusa.  O alarmante, é que tudo isso se dá de forma assintomática. O paciente não percebe nada até a evolução para os estágios avançados. É aí que mora o perigo!

É responsável por cerca de 12,3% dos casos de cegueira em adultos. Atinge 1-2% na população geral e até 7% após 70 anos.

Trata-se de uma neuropatia óptica multifatorial caracterizada por perda progressiva de células ganglionares da retina, afinamento da camada de fibras nervosas e escavação do disco óptico, frequentemente associada a pressão intraocular (PIO) elevada.

O glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) representa 80-90% dos casos. Doença crônica, insidiosa, sem cura mas com possibilidade de controle com o tratamento.

FATORES DE RISCO PRINCIPAIS

Pressão intraocular elevada (PIO)PIO >21 mmHg é o fator de risco modificável primário
Idade avançadaRisco aumenta após 40 anos; triplica aos 70 anos
História familiar positivaParentes de primeiro grau (pais, irmãos, avós) aumentam risco em 9 vezes
Etnia negraGlaucoma é 6 a 8 vezes mais prevalente e desenvolve-se em idade mais precoce
Etnia asiáticaOrientais têm maior prevalência de glaucoma de pressão normal
Espessura corneana finaCorrelaciona-se com maior risco; medições imprecisas podem mascarar a PIO real
Miopia elevadaAlto erro refrativo dificulta diagnóstico

FISIOPATOLOGIA: MECANISMO CENTRAL

A fisiopatologia do glaucoma envolve dificuldade de drenagem do humor aquoso na câmara anterior.

  • Produção: corpo ciliar (câmara posterior) → pupila
  • Drenagem: rede trabecular → canal de Schlemm (estrutura tipo linfática modificada)
  • Aumento PIO → lesão neuronal progressiva do nervo óptico

Perda de fibras nervosas é o sinal mais precoce do dano glaucomatoso, sendo que defeitos do campo visual normalmente surgem quando ~50% das fibras nervosas já foram perdidas.

CLASSIFICAÇÃO PRINCIPAIS TIPOS

1. Glaucoma Primário de Ângulo Aberto (GPAA)

Tipo mais comum (80-90% dos casos)

Características:

  • Ângulo da câmara anterior: anatomicamente normal e aberto
  • Fisiopatologia: envolve suscetibilidade micro circulatória na cabeça do nervo óptico ou fatores da matriz extracelular que interferem na drenagem
  • Apresentação: insidiosa, indolor, bilateral
  • Pressão intraocular: elevada na maioria
  • Idade de início: geralmente >40 anos
  • Sintomas: assintomático no início; perda visual é caracteristicamente tardia

2. Glaucoma Primário de Ângulo Fechado (GPAF)

Mecanismo diferente do GPAA:

  • Anatomia: ângulo da câmara anterior é agudamente estreito
  • Bloqueio pupilar: lente deslocada anteriormente, encostada na íris → bloqueio do fluxo de humor aquoso através da pupila
  • Consequência: pressão aumenta atrás da íris → íris periférica se curva para frente, cobrindo ângulo da câmara anterior
  • PIO elevada → neuropatia óptica progressiva

Subtipos:

  • Crônico: aumento gradual de PIO, frequentemente assintomático
  • Agudo: elevação episódica e abrupta da PIO; oclusão súbita da rede trabecular por íris periférica

Sintomas da crise de fechamento angular: visão diminuída, dor ocular intensa, olho vermelho, edema corneano, halos em torno de luzes, dor de cabeça, náusea e vômito.

3. Glaucoma de Pressão Normal (GPN)

Variante do GPAA que quebra o estereótipo:

  • PIO normal ou baixa apesar da lesão glaucomatosa
  • Etiologia: envolve fatores vasculares (deficiência microcirculatória) e neurais

4. Glaucoma Congênito

Forma rara que afeta recém-nascidos e primeiros meses de vida:

  • Associado a anomalias anatômicas da malha trabecular
  • Alterações do desenvolvimento do ângulo da câmara anterior

5. Glaucoma Secundário

Multicausal, associado a doenças oculares ou condições operatórias.

Principais causas:

  • Trauma ocular
  • Inflamação ocular
  • Tumores
  • Catarata
  • Uso de medicamentos (corticoides)

Dos glaucomas secundários, existe um que gostaria de destacar pela sua severidade e pela frequência com que vejo:

Glaucoma neovascular

Esse tipo de glaucoma causa bastante sofrimento ao paciente, por conta da dor e nunca ocorre isoladamente – ele sempre está associado à condições isquêmicas (falta de oxigênio) da retina, como:

  • Retinopatia diabética proliferativa (causa mais comum)
  • Oclusão da veia central da retina (OVCR)

 É de difícil controle e tratamento é bastante complexo.

Quando a retina não recebe fluxo sanguíneo adequado, ela produz o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que estimula a formação de novos vasos sanguíneos anormais. Esses novos vasos são frágeis e vazam, crescendo sobre a íris e os canais de drenagem do olho, bloqueando o humor aquoso e elevando a pressão intraocular.

O tratamento precisa combinar terapias anti-VEGF e panfotocoagulação retiniana para tratar a isquemia retiniana, junto com medicamentos anti-angiogênicos (injeções intra-vítreas). Procedimentos para controlar a pressão intraocular, como o implante de tubo de drenagem, costumam ser necessários e é mandatório o controle das doenças que aumentam o risco cardiovascular do paciente.


Patogênese do GLAUCOMA: Degeneração Neuronal

Mecanismo de lesão:

  1. Perda progressiva de axônios das células ganglionares da retina
  2. Afinamento da camada de fibras nervosas retinianas
  3. Atrofia da cabeça do nervo óptico com depressão central (escavação)
  4. Escotomas (defeitos do campo visual abaixo) que coalescem, formando escotoma arqueado (típico glaucomatoso)

A suscetibilidade microcirculatória e fatores da matriz extracelular (α-SMA em musculatura lisa) estão envolvidos na neurodegeneração.

DIAGNÓSTICO

Métodos principais:

  • Tonometria: medição da PIO
  • Gonioscopia: avaliação do ângulo da câmara anterior
  • Estereofoto de papila: avaliação da cabeça do nervo óptico (escavação)
  • Campimetria: campo visual (detecta defeitos quando ~50% fibras perdidas)
  • OCT de papila: afinamento camada de fibras nervosas peripapilar e de células ganglionares

TRATAMENTO DO GLAUCOMA: CONTROLE VITALÍCIO DA PRESSÃO INTRAOCULAR (PIO)

O glaucoma não tem cura, mas pode ser controlado eficazmente, evitando progressão e cegueira. O tratamento é contínuo e personalizado, ajustado pelo oftalmologista e visa reduzir PIO em 30% ou mais do valor inicial.

1. Colírios Hipotensores (1ª linha) diários

CLASSEEXEMPLOSMECANISMOEFEITOS COLATERAIS
Análogos prostaglandinasLatanoprosta, bimatoprostaAumentam drenagemVermelhidão, alongamento cílios
BetabloqueadoresBetaxolol, timololReduzem produção humor aquosoBradicardia (cuidado cardíacos)
Inibidores anidrase carbônicaDorzolamidaReduzem produçãoIrritação local
Alfa-agonistasBrimonidinaReduzem produção + drenagemSonolência

A aderência ao tratamento é crucial, já que a interrupção causa aumento abrupto da PIO, podendo acelerar o dano.

2. Trabeculoplastia Seletiva a Laser (SLT)

3.MIGS (Cirurgias de glaucoma minimamente invasivas)

4. Cirurgias

Quando tratamento clínico falha e não consegue impedir a progressão do dano glaucomatoso, pode ser necessário recorrer à:

  • Trabeculectomia (“TREC”)

ou

  • Implantes de drenagem (“tubo”)

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